“Miguel era pequeno, debruçado no quintal, mas ele via, ele reparava em tudo. Cada um na natureza tinha o seu jeito de andar: o tatu-bola dando cambalhotas, a aranha pendurada na teia, a minhoca mergulhando na terra, a borboleta com as asas no vento. Cada um tinha o seu modo. E o do seu avô era tão sem pressa que até dava tempo da formiguinha passar.
Antes de pisar, era como se ele pedisse licença: uma muleta depois da outra, bem devagarinho… Respeitando a preferência das formigas e dos grilos. No mundo do seu avô era assim: ninguém pisava em ninguém. Nem ele pisava nas baratas, e nem as baratas pisavam em cima dele: todos tinham muito respeito nos passos. —
Rita Apoena.
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James Blunt - Goodbye My Lover.
“Tu és meu exílio, é em ti que me escondo quando a dor me persegue, em ti repouso em dias de guerra, é em ti que me encontro. Me sinto seguro, acalentado, aconchegado, exilado só em ti. Em ti, o amor em mim cresce, e o meu eu desaparece. Em ti a felicidade se ensoberbasse, e a dor esmorece. Em ti, só em ti. —
Rodrigo Victor.
“A caneta fugiu do papel. Trêmula. Chorando com as lágrimas de suor que escorreram por entre os dedos. Fugiu como fogem de guerras para não se sentirem tão culpados com o sangue que escorre a tubulação de esgoto. Fugiu com a falência da tinta e as fracas palavras que se perdiam no branco. Minha caneta azul, cor favorita do meu amor. Já falou tanto e por tanto deve estar com alguma dessas viroses da estação. Morreu junto com as letras que limpei do armário, o meu caderno velho e tudo que fingi acreditar, mas se eu fingi não acreditei. Foram como se tivessem dados por mortos e enterrados em algum universo que jurei esquecer o nome. A tinta azul grudou nas pontas dos dedos, nas bordas das mãos, para eu não esquecer que a caneta foi, mas a cor favorita dela ainda é azul, como o céu e o mar que tanto mergulho para desvendar as cores dos corais, dos peixes palhaços que riem manso, das algas que dançam silenciosas. O azul do amor que chegou. Somos a lembrança mais real das cores que se desdobram em mil. Quantas cores têm o amor? — A caneta azul.
“Um, dois, afivelo o meu sapato
Três, quatro, saio, puxo a porta e bato
Cinco, seis, tem gravetos no meu ninho
Sete, oito, apanhados no caminho
Nove, dez, como é gorda essa galinha
Onze, doze, Vou seguir por essa linha
Treze, catorze, vou ao parque namorar
Quinze, dezesseis, na cozinha a trabalhar
Dezessete, dezoito, esperei horas a fio
Dezenove, vinte, o meu prato está vazio… — Agatha Christie.
“Capitu chamava-me às vezes bonito, mocetão, uma flor; outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia quando ela me passava as mãos pelos cabelos, dizendo que os achava lindíssimos. Eu, sem fazer o mesmo aos dela, dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus. Então Capitu abanava a cabeça com uma grande expressão de desengano e melancolia, tanto mais de espantar quanto que tinha os cabelos realmente admiráveis; mas eu retorquia chamando-lhe maluca. Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera, e eu dizia que não, ouvia-lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras extraordinárias, que subíamos ao Corcovado pelo ar, que dançávamos na lua ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos andávamos unidinhos. —
Machado de Assis,
Dom Casmurro.

Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci (Dia a dia lado a lado)
“Filho. Meu filhinho. Médico nem pensar. Não criei você para salvar vidas. Nem curar bicho de pé. Nesta casa você não entra se quiser insistir. Nada de estetoscópio. De bisturi. De cara branca. Apalermada. Não foi essa a educação que lhe dei. Meu Deus. Onde errei? Não coloquei você no mundo. Nem o seu irmão. A sua irmã. Para ser engenheiro. Porra de advogado. Muito menos psicólogo. No divã. Juro que dou uma de louca. De tantã. No dia em que a Biologia. Ou a Geografia. Ou a Matemática. Fizer a sua cabeça. Pelada. Igual ao filho da Dona Creuza. Coitado. Passou no vestibular. Diz que vai ser publicitário. Fazer aquelas propagandas da TV. Não é de lascar? Não é de foder? Olhe bem para a sua cara. Olhe lá. Aonde você quer chegar? Aonde? Em qual horizonte? O sacríficio que a gente fez. Para lhe dar estudo. O duro que foi. O duro que é. Para uma mãe. Assim. Acompanhar o filho jogar. O futuro no lixo. Meu querido. Excomungado. Seu danado. Ouça. Numa boa. É a última vez que lhe aviso. Fiz até promessa. De você ser. Igualzinho. Zinho. Ao seu bisavô. Ao seu avô. Ao seu pai. Meu amor. Pense bem o que você vai fazer da sua vida. Hein? Seu merda. Não sou eu quem está pedindo. É o mundo que necessita. Cada vez mais. De poeta. Poeta. Poeta. — [Marcelino Freire, poeta dos bons].
“Lamento me informar que o meu permitido não vai além de engolir elegantemente os nós que a vida me enfia goela abaixo, causando-me náuseas, vômitos e má digestão. Ah, mas eu sinto tanto… Espero sinceramente ser informada se por ventura descobrirem lástima maior do que ter pena de si mesmo. Como um maço de cigarro que é consumido pelas chamas e jamais se reedifica, sinto-me queimar, com sopros miseravelmente infelizes na busca de apagar o fogo que me arde. Revelo, sou feita não de apenas passos firmes, palavras amargas, sorrisos sarcásticos e sentimentos omitidos, escondo por trás de minha postura ereta, noites mal dormidas, um olhar carregado de cansaço e rascunhos recheados de nostalgia espalhados pelos cantos. Perdoe-me os olhos de ressaca, ingeri mais doses de apego do que me era necessário, e como “saideira” serviram-me a frieza. Não me deixando desviar dos costumes, ganhei de brinde uma quase insuportável, dor de cabeça. —
Desnudar-se.